Com vontades de ser Eça, Machado... coitado!
anunciaram e garantiam que o mundo ia se acabar
- “Mas afinal de contas, Emília, que é que você é?”
Emília levantou para o ar aquele implicante narizinho de retrós e respondeu:
- “Sou a Independência ou Morte.”
Memórias da Emília, Monteiro Lobato
Não convenci sequer alguém que valho a pena e que, na vala dos que jazem sós, espero apenas agradar. Miserável, ao contrário, poupo os outros da minha companhia diversa. Não sou assunto, não sou convidado, não sou referência qualquer de amizade. Se a perenidade era bom atributo, minha presença revolve o verbete na angústia das horas ao meu lado. Não rendem qualquer elogio ao meu esforço de manter a conversa, perco a coroa para os concisos em comportamento. Se têm algo a dizer, são comentários sobre o tempo e um pedido de favor rápido; tão sociáveis na sua hipocrisia simpática.
Fui feito sob impacto, colisões de células heterogêneas ao Big Bang e à construção perfeita. Buscando semelhanças, considero-me meteoro, com incrível potencial destruidor e utilidade questionável. Sou ínfimo em relação ao Universo, assim como a Terra, o Sol e a Via Láctea também o são. Sou a pulga no infinito, o micróbio pestilento em ação. Sinto a grandiosidade soberana das coisas reinando sobre meu resumo simples da espécie. Mesmo em relação à humanidade, devo contribuições expressivas; minha vida, em contexto, é, em síntese, uma sucessão de problemas que parecem maiores do que eu.
Diluiu a personalidade ao menosprezo próprio, rebaixou sua experiência à infantilidade de uma rede social e expôs fotos manipuladas. Subestimou-se e alertou do perigo de sua companhia, afastou a companhia que procurava encontrar. Entendiou a todos com o discurso pronto e passou despercebida na multidão. Dizia ser como não agia e não sabia definir a si mesma, achando que precisasse. Caiu na armadilha dos estereótipos, fingindo fugir deles enquadrou-se perfeitamente.
Restrito pela minha simplicidade, nosso relacionamento tende ao tédio da minha falta de lampejos. Sem remédio, prevejo contendas, preliminares de um desastroso fim. Sofro em noites de análise própria, em preces desesperadas por um novo eu. Culpo a mim e acredito ter razão, mas desconheço os motivos de uma personalidade tão serena e pueril. A tristeza renega o choro, querendo encontrar força e coragem que mantenha seu interesse e tudo se resume, em contradição, a pedidos aflitos por mais tempo com você.
As unhas pintadas, as caras pintadas, as roupas apertadas com estampa de grife. As vitrines são vivas e propagam tendências, exigem obediência e incentivam clichês. Padronizam as ruas e mitificam escolhas, opinam e impõem regras de comportamento. O comum não figura-se no simples, mas transborda em tentativas do grotesco. Um show à parte sem realejo, o esdrúxulo na passarela dos necessitados de atenção; nada que componha a personalidade, apenas o concerto público dos que buscam acolhimento.
O tempo, cortado em porções, foi separado em momentos distintos. Rotulados pelo que deixaram de marcas, foram aqueles tristes que eu custei analisar. Abrir cicatrizes é trabalho árduo que procrastinei por muito e quando feito, deixou dúvidas. Cada qual cabia em dois grupos: dias ruins ou de aprendizado. Acabei poupando esforço e os coloquei empilhados no mesmo monte de experiências. Cri que fossem inseparáveis e que o ensino fosse fruto do pesar. Temo que subjuguei, mais uma vez, a felicidade como simples agrado, rápido e desproposital; a felicidade com fim nela mesma. Findei o ensaio de minha vida acreditando no bônus conquistado a duras penas, evitando pensar na escassez de alegria e julgando-na como dispensável.
Só porque carrego memórias tortas, atitudes torpes, covardia insistente, sorriso entre dentes, dúvidas cruéis. Só porque os cabelos se espalham, os olhos não claros, meu porte pequeno, minha postura descrente, o olhar descontente e uma dependência algoz. Só porque não escrevo em versos, repito clichês, reprimo loucuras e temo abandono. E ainda mais: só porque eu quis. A reciprocidade é lei rara; as expectativas são noites de insônia.
Quisera eu amar ainda e tanto quanto um dia fiz em absoluto. De postura grave sustentasse o peso de tamanho ministério: a preocupação eterna de sempre fazer feliz. Pudera eu tentar de novo, mas preservo o outro da companhia duvidosa de alguém deficiente. Preservo a mim, pois sou frouxo e permaneço infecundo de entusiasmo.
Fique entendido, no meu testamento, quando ao livre firmamento minha alma endereçada desprender do corpo, que a estadia terrena deixou transparecer mais falhas que belezas; que minha observação dispersa pôde captar erros terríveis; que ainda descontente com o funcionamento do mundo, tomei rumo em ações benéficas; que as tentativas, mesmo que vãs, foram com intento altruísta; que, em defesa contra a tristeza, porém, fui o menor dos guerreiros. Com as devidas explicações, me perdoo e me perdoem pela pouca herança deixada em vida, atitudes simplórias nada saudosas e memoráveis.
Sou a cadeia de minhas tristezas, presas em cárcere perpétuo. Presas, mas vivas, sem condenação fúnebre; mesmo que quisesse, não consigo apagá-las. Estão retidas umas às outras, somando sofrimento à rotina tediosa. Sobressaltam ao acréscimo de novo pesar e juntas todas lamentam alto, cada uma sua aflição. Já triste, renovo a angústia de tempos remotos e intensifico a descrença em uma vida melhor.